Janeiro 31, 2007
Rainha
É que eu queria me despedir. Dizer que foram ininterruptos os dias em que lhe amei a cada respiro, a cada sorriso que eu imaginava desperdiçado quando não sorrindo o que é da sua seiva. Falar que sonhava e acordava em meio a febres e aleluias a sua ausência. Ao lado esquerdo da minha cama, tão direita. Contar que meu cigarro tinha o sabor da sua prosódia. Sentar de perna cruzada meditando sobre a sua imagem em minha epifania. É que eu queria me despedir. Sentir formigar meus ossos até adormecer minha insônia na sua carícia lacônica. Gritar que meu sorriso só é alegre quando no seu anoitece. Segredar meu segredo, o único medo que você não poderia temer. Degredados filhos de Eva. Minhas estações onde não desço. Meus vales onde não choro. Para não contar que meu coração quase explode ingenuidade com a mínima possibilidade de ver o que lhe é tranquilo. Não ser mesquinha quando tão grande essa querência. É que eu queria me despedir. Mas como o tempo não segue paciência, a deus que ofereço minha memória. Do seu reinado, meu rei, preso aqui. Eu não queria. Mas tive que partir.
Ana Margrit |
31.1.07 |
Manuscritos
Janeiro 16, 2007
Encontro
Continuo do silêncio. Antes eu era uma resposta. Eu era a reação. Hoje sou a pergunta primeira. Aconteço com a areia que resvala vidro. Mesmo quando não há mais o que escoar. O tempo, senhor das almas e dores, começou a aurora. E o acreditar. Do aceitar. Compreende a profundidade de uma verdade. O que dói mesmo quando não quer machucar. Inspira almas e mentes. Esquecemos muitas vezes onde queremos chegar. O que queremos criar. E tudo o que nasce dói. A verdade sempre dói mesmo quando causa prazer. O prazer dói a dor doída de não cristalizar o momento, aquele minuto tão único do gozo. O efêmero renascimento. Respira que o gozo sorriso pode reverberar. Mas é preciso aprender a doer. Continuo num silêncio. Assim, de soslaio, camuflado. Ele sempre grita dentro aqui. Nunca cala essa voz quase tinhosa que impulsiona esse corpo a ir um pouco mais e além. Nesse vento que quase apaga a vela que, quase tinhosa, resiste. Liberdade.
E a chama continua ali, tremeluzindo sensações.
Não sou do tempo. Sou a pergunta primeira. Liberdade é não precisar de resposta. E não ser a reação. Tremem meus prédios, minhas gaitas, meus países. Meus oitenta anos que vão chegar. Minhas ilusões que vão morrendo a cada prazer atenuando o que eu chamava de meu. Sensações. E insisto, não sou mais as reações. A chama continua ali, reverberando as paixões minhas. Primeiras. Mas é quando amo que nasce rocha, transmutação. Tremem meus versos e minhas mãos. Sou um carinho petrificado no olho do outro que desejo, impulsão. E se o seu olhar continuar paciência, posso pensar propulsar coração. E não preciso de respostas. Sou o verbo e o primeiro. Estou o agora. Sou o encontro com o então.
Ana Margrit |
16.1.07 |
Manuscritos
Janeiro 1, 2007
- 2007. O ano dos encontros -
É de uma tal aleluia. E felicidade plena é o que de mais primeiro posso lhes desejar.
"Algo está já em movimento
e não há jeito de estancar.
A isto
uns chamam de sorte ou azar.
A isto
os gregos chamavam de tragédia:
aquilo que foi posto em movimento
com a ajuda dos deuses
e deus algum
- pode alterar"
em Algo está já em Movimento - Affonso Romano de Sant'Anna. 2005.
"O que torna as amizades indissolúveis e lhes duplica o encanto é um sentimento que falta ao amor: a certeza. Aqueles moços sentiam-se seguros de si mesmos; o inimigo de um deles tornava-se inimigo de todos. Abandonariam seus interesses mais urgentes para obedecer à santa solidariedade de seus corações. Incapazes todos de uma covardia, podiam opor um não formidável a qualquer acusação e defender-se uns aos outros com segurança. Igualmente nobres de coração e de igual força nas coisas de sentimento, tudo poderiam pensar, tudo dizer-se no terreno da ciência e da inteligência. Daí a inocência de suas palestras, a jovialidade de suas palavras. Certos de se compreenderem, seus espíritos divagavam à vontade; por isso não faziam cerimônias entre si, confiavam-se mutuamente suas penas e alegrias, pensavam e sofriam de coração aberto. As encantadoras gentilezas que fazem da fábula dos Dois Amigos um tesouro para as grandes almas eram entre eles habitual."
em Ilusions Perdues/Ilusões Perdidas - Honoré de Balzac. 1843.
dosagem:
Time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence, a time of confidences
Long ago, it must be, I have a photograph
Preserve your memories; They're all that's left you
Bookends Theme. Paul Simon - 1968.
Ana Margrit |
1.1.07 |
Manuscritos
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