30.3.07
 

Entrega

Fui começar a enquadrar no meu silêncio toda angústia que me cabia. Descoberta. Minha pele entreaberta. Olhei a vida e não precisava verbalizar essa confusão de pratos, gatos e serpentinas.Todos eles ali, dançando com meus pés no chão. A esconder dentro do pote com mel a doçura do sorriso envergonhado ao sorver delícias. Vergonha que o mundo me ruborescia. Quando o abraço apertado se fazia em público. O vento que sopra a ferida é tão livre. O que é livre não tem consciência de ser. Não precisa de companhia. A dor pode ser só para ser sentida. O só de dentro era o que entristecia. Quando vi no silêncio o então que não era angústia. O só de dentro virava a minha alegria. O abraço apertado na platéia era meu medo. Subi ao palco, colombina protagonista. O sorriso não precisava virar retrato do que minha alma pedia desculpa por aquilo que não disse. A colombina fala através do olhar. Precisar conciliar o mundo de fora e de dentro era minha jornada. Eu nada sabia. E cantava. A menina cansou de prosodiar amarguras. Mas ela era assim, toda ela, uma seresta. Toda agitada num copo de saudade. Mas ela era assim, a própria alegria. Criança que pula no mar e grita. Olha pro céu e vê poesia. De uma intuição.

De uma intuição meu corpo se desfazia em nós. Éramos a busca. Encerrávamos vida na mesma cordilheira de danças, ciganas e delícias. De sorver o mel da vergonha. Alegria. Para a platéia deixamos o um. Para conjugar mesa e cama. Tiramos da porta a chave que a nossa entrada já não temia. O amor que a beleza cingiu, o sorriso que resgatei da lembrança.

Ana Margrit | 30.3.07 | Manuscritos


15.3.07
 

Princípio da felicidade

E quando parece morte é sobrevida. O sobressalto das veias que entopem em paisagens mais cinza. Eu aprendia a cada detalhe. Eu não sabia respirar. Quando pela primeira vez o halo de respiração açoitou o que era meu, meus pulmões, inchados, choraram de dor. Era a dor de nascer. Eu nascia a cada instante e descobria cada ilusão que eu acreditava verdade. Cada miragem que era só agonia. O halo. Cores tremeluziam em meus olhos e eu saía do útero como quem precisa lutar para viver. Toda uma luta. Um caleidoscópio de peças que não fazia sentido antes do primeiro gotejo de ar, o ar que encheu meus pulmões e agora me trazem vida. A vida. Como se eu precisasse desse corpo para entender que ainda não houve transcendência. Para sentir cada miséria e ali encontrar magia. Era o meu aprendizado. Quando eu esbarrava em cada cancela e não queria continuar. Era meu corpo gritando o cansaço desse corpo tão jovem mas tão reticente. Eu precisava entender que meu princípio era justamente o que não me faltava. Eu não sofria pelo não amor, mas pelo amor que eu não conhecia. Eu tinha ali, todos os dias, passando abertamente em minha vida, todo amor do mundo esperando o reflexo no espelho. De mãos abertas para a troca. O grande desafio é a sintonia da linguagem. Mas, da angústia, eu via minha ciclotimia. A inconstância de tanto sentir dentro de um corpo ainda despreparado para a vida real, a vida que se vive do lado de fora da ilusão. Meu princípio era um ego amordaçado, pedinte, mendigando valores que na verdade eu sabia que não eram meus. Mas o corpo engana. O corpo carece desvirtuar. A maçã da sabedoria. Sintonia fina entre o bem e o mal. Eu sentia um amor maior que o mundo. Mas ainda não sabia deixar amar.

Ana Margrit | 15.3.07 | Manuscritos


3.3.07
 

Caminho

O esquecimento é o que me dói, nas crateras de memória onde o sonho então ruiu. Me pergunto então à aurora, esse sonho eu já vivi? Sem resposta então me lembro que a beleza tão sonora dos versos que ouvi nunca estava à altura da superfície tão temente da cabeça que é só tua. Um futuro de presente é o passado de ausência. O momento de amargura é o porvir do recomeço. Sempre nasce uma ternura do amor que é sempre avesso. A ternura displicente, de quem já amou e agora sente que o amor está em dívida. E não ama, não se entrega, para cobrar ainda em vida o amor mais reticente. O espelho ainda sangra a imagem tão pungente. E essa falta que entorpece espera o outono da demora para amar abertamente. Faz do verso pobre prosa, a mentira inocente. A paixão que entremeia o momento da derrota e a vitória indecente é tão frágil que ignora o que a verdade agora mente.

Ana Margrit | 3.3.07 | Manuscritos


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