9.8.07
 

Doce cantiga

Qual o livro que você nunca escreveu? Sobre uma paz inerente, um gozo compartilhando sorrisos, pulsões de completude, felicidade. Sobre pessoas que pensam. Sobre gente viva, gente que não se comporta como boiada em dia de chuva esperando para entrar no transporte coletivo. As criaturas, cada vez mais embrutecidas, fazem o caminho inverso da flor. A primavera caminha para o inverno da suprema inteligência. O tímido egoísmo, que não se revela, se escamoteia em atitudes altruístas que reconfortam um ego recompensado pelo moralismo cristão. Condena, feroz, a felicidade alheia para não encarar a própria mediocridade. Manada. Sem pensar, o movimento automático é da tristeza. Vociferar. Um banco de ônibus vira motivo de agressões. Pois tanto quem senta como quem olha e quem fica de pé não encara o outro como pessoa, mas como potencial inimigo. São todos vítimas. Quem fura filas, quem não respeita o farol amarelo, quem tenta sempre de alguma maneira tirar proveito de uma situação em detrimento do outro. Vítimas do sistema, vítimas da injustiça, vítimas de qualquer agente subordinador, vítimas de uma educação assassina que incute nas crianças a cultura brasileira da manada.

Mas são poucos os que primeiro dão para depois receber. E mudar. Experimente se doar. Se doar um pouco. De alma aberta.


Steve McCurry. BURMA. Yangon. 1994. Electronics around the crown of Buddha in sule Pagoda


Qual o livro que você nunca escreveu? Um livro de paz, em que as palavras iluminadas trazem um equilíbrio que não precisa de intelecto superficial para enganar. Algumas pessoas se enganam. Alguns e muitos esquecem de regar seus valores. Valores de amor, valores de singeleza. Valores de primeiro fazer para, então, movimentar a roda da prosperidade. Transbordado sorrisos, transbordando beleza. Não passa incólume o cidadão que, mesmo em condição de miséria, se atormenta com a necessidade de doar. O necessário para ser feliz. Experimente não esperar nem moldar o que você acha que merece. Receba e agradeça. Apenas receba. De alma leve.

Qual o livro você nunca escreveu? Dos discursos que se aprimoram. Do primeiro passo, da mão estendida, pois é bom o trocar. É bom devolver para a humanidade um estado de paz interno. Um presente. Por ser tão feliz, lhe permitir um agrado. Assim, do coração. Um sorriso com abraço para dizer quanto é preciso compartilhar com os demais desse universo interno de crateras mas de muitas belezas. Experimente o sopro da simplicidade. De aceitar que, em certos momentos, é necessário se afastar da miséria de mentes frágeis para fortalecer o próprio intelecto. O intelecto maior, a inteligência sutil que admite erros e acertos. Que não soma ao medo a vergonha de ter medo. Que não julga a riqueza e deseja a prosperidade. Sem hipocrisia. Porque é preciso ter para dar.


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sweet lullaby - deep forest

Ana Margrit | 9.8.07 | Manuscritos


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