Para mim, viajar sempre foi um retiro para a alma. Quase um ritual de olhar para dentro. Pois ao viajar, sempre conseguia diminuir o hiato, o grito, o medo da rotina. Engraçado que em todas as viagens, a rotina de hábitos e presenças foi o que mais se fez presente. Convites para viagens que nada diziam para mim, sinônimo de recusa. Temos que ser mais honestos uns com os outros, era o que eu pensava. E recusei. Dezenas delas.
Entretanto, venho enfrentando uma descoberta. A mais recente. Tenho sentido por estes dias as mesmas sensações de maravilhamento que tive ao estar em Nova Iorque, em Roma, em Los Angeles, em Londres, em Praga e em Paris (as poucas cidades que conheço até hoje). A sensação do novo. A sensação de que estou presente e o cotidiano olha para mim, passa ao largo e eu consigo me destacar daquilo tudo ao mesmo tempo que sou tudo aquilo ali, acontecendo, agora.
O agora... estou viva no agora. Observando as pungências, as presenças e as ausências. E no meio de tudo isso, a vitalidade. A vontade de viver de verdade. O amor que sinto pelas pessoas pelas quais eu realmente sinto uma conexão. Amor.
É o amor maior que o mundo. Viver no agora. Viver no presente. Silêncio.
E vem a questão. Viajar para dentro de si; será que esta é a melhor viagem? Pena que ainda são poucas as pessoas que têm a dimensão do que é viajar para dentro de si. Mas o negócio está crescendo... tá crescendo.
Consciência corporal era algo que eu pensava que, definitivamente, não existia. Ou, se existisse, definitivamente não era coisa pra mim. Pois não é que meu corpo vem reagindo de uma maneira muito esquisita ultimamente? E melhor: venho reparando e sentindo suas broncas. Por exemplo, o café. Algo que sempre adorei. Desde a bebidinha até os pontos que em São Paulo se propagam (e que em Nova York, ah, Nova York... pontos que são a cara de Nova York e eu adoro).
Continuo amando os lugares que servem café. O cheiro, o charme. Tudo. Continuo curtindo demais cada um, assim como a padaria do seu Benjamin Abraão, em Higienópolis. Ou a padaria Angélica, um pouquinho mais pra baixo do bairro. Ou a Letícia, no Alto da Lapa. Cristalo, Suplicy, até a Starbucks me encanta. Mas meu corpo não suporta mais, entretanto, a bebida. Bemg! Taquicardia insuportável. Até vontade de fumar dá. Parei de fumar faz um tempo e não tive recaída. Tenho certeza de que a massagem ayurvédica me ajuda muito. Mas a consciência que a massagem proporciona me deixa mais equilibrada para fazer e refazer minhas escolhas. Escolhi que não vou beber mais café. Comentei com minha nutricionista sobre esse lance, da irritação que sinto também. E ela foi clara. O corpo está sempre respondendo imediatamente ao alimento. Dar taquicardia é o mesmo que o corpo gritar que não quer aquilo aí. Ou seja, basta com o café.
Acabei de assistir ao filme "Breakfast at Tiffanys". Lindo, sempre. Engraçado como o cigarro e tudo o que é ruim fica charmosinho nesses filmes.
Voltando ao corpo, não é só com café que as coisas têm ficado críticas. O excesso de pão. Percebi também que fico irritadiça. Com bebida alcoólica, sem comentário. A sensação de inchaço no dia seguinte é insuportável. E penso: tem certas coisas que são boas demais, mas o preço que a gente paga por consumí-las é alto demais. A consciência fica entorpecida. E pôr pra dentro algo que vai afetar meu poder de discernimento? Tô cada vez mais fora. Engraçado é meu marido começar a ver meus hábitos e começar a mudar os deles também. Sem eu dizer nenhuma palavra! DE FATO, o exemplo faz milagres. Cobrança e chateação tá com nada. Tá todo mundo bem grandinho pra saber o que é melhor pra si mesmo.
Em tempo, não estou mais na yoga todos os dias. Agora, três vezes por semana. Puxar demais o ritmo, sendo que nossa cabeça não acompanha, é só um passo para a frustração. Eu não estava acompanhando e, ao começar a perceber essa frustraçãozinha, pem! hora de revisar conceitos. Dei uma relaxada e como isso me fez bem. Yoga sempre. Mas é mais importante a gente perceber nossos limites e qual a finalidade de tudo aquilo. Seja com a yoga, seja com um sorriso, seja com uma bronca, seja a aceitação, seja a hora de dizer não.
Petria Chaves é jornalista. Tem 26 anos. É paulista.
Repórter e apresentadora da Rádio CBN, tem caminhos reversos e conversos.
Foi eleita em 2009 uma das cinco melhores repórteres de rádio pelo Troféu Mulher Imprensa.
Com a série de reportagens "Lixo Eletrônico - Paradoxo da Modernidade" recebeu
o Prêmio Allianz de Jornalismo na categoria especial Sustentabilidade e Mudanças Climáticas.
Série que também foi apontada uma das três melhores reportagens sobre destinação do lixo no Brasil pelo
Prêmio Abrelpe, da Associação Brasileira de Empresas de Resíduos Sólidos.
Em 2008, recebeu o prêmio APCA (da Associação Paulista dos Críticos de Arte)
pelo Programa Caminhos Alternativos, eleito pelo juri o melhor programa de rádio na categoria Variedades.
Versando, conversando, reversando, escreve prosas e contos
por diversão e simpatia.